A operação de magia é  – entre operações de todos os tipos e de quaisquer naturezas – a única na qual a relação de especificidade entre:

  • o objeto esperado da operação e
  • o instrumento real exigido em ambientes de realidade para obter o tal objeto na prática do ambiente,

não é específica.

A varinha mágica de condão é o instrumento universal com o qual, um único Plin!!!  faz aparecer ou desaparecer instantaneamente e sem custos, qualquer coisa.

Alguns dos modelos mais usados entre nós para modelagem de operações e de organizações – pode ser que a maioria deles – são não-discriminativos em relação aos objetos esperados das operações e seus elementos componentes.

Não há como encobrir o fato inelutável de que objeto esperado de operações e o instrumento necessário para obtê-lo são objetos diferentes. 

Ser ou não discriminativo em relação ao objeto e seus componentes depende do tipo de informação que o modelo requer para poder funcionar:

  • modelos não-discriminativos funcionam com variáveis não-originais e não-constitutivas do objeto;
  • modelos sim-discriminativos funcionam ao contrário, com variáveis sim-originais e sim-constitutivas do objeto.

É muito importante entender isso de modelos não, e sim, discriminativos com relação ao objeto e componentes ainda mais quando os modelos que usamos em sua maioria são do tipo não-discriminativo. Essa questão é relacionada com o modo como entendemos as coisas, isto é, qual a episteme com que configuramos o nosso pensamento. Esse entendimento coloca os modelos de dois lados diferentes em relação a uma ruptura no entendimento do mundo em nossa cultura. Veja abaixo:

8.1 A importância de David Ricardo, segundo Michel Foucault

8.2 A diferença entre Adam Smith e David Ricardo, segundo Michel Foucault

O mago Merlin empunhando a varinha mágica de condão

Vemos acima Merlin e seu instrumento absolutamente versátil, indiferente quanto a qual seja o objeto de desejo do rei Arthur, capaz de instanciar qualquer coisa em qualquer ambiente instantaneamente sem gastar nada, e de modo sempre reversível, agente organizador do mundo pela redução de entropia
sem gastar energia e por isso, mágico.

Toda essa descontinuidade no modo como entendemos as coisas, ou descontinuidade no modo de ver o mundo, ou como diz Foucault, nessa descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825, é função do surgimento de uma nova forma de reflexão. Começamos a consolidar uma nova maneira de configurar o pensamento.

"Instaura-se uma forma de reflexão,
bastante afastada do cartesianismo e da análise kantiana,
em que está em questão, pela primeira vez,
o ser do homem nessa dimensão segundo a qual
o pensamento se dirige ao impensado, e com ele se articula."

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. IX – o homem e seus duplos; tópico V – o “cogito” e o impensado,
de Michel Foucault

Estamos rodeados por modelos sem espaço em suas estruturas para o objeto e seus componentes, e estamos acostumados a projetar novos modelos com o modo de ver as coisas embutido nessa maneira de ver o mundo. Este trabalho tem uma porção de exemplos de modelos que são assim, e eles podem ser encontrados em todas as áreas: na produção, nos sistemas de ensino, na previdência social, nos modelos economico-financeiros, entre outras.