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A história do nascimento do ‘As palavras e as coisas’ contada por Michel Foucault no Prefácio desse livro, associada a imagens

Veja essa história em uma animação que está em 

Uma história do nascimento do livro ‘As palavras e as coisas, 
contada pelo próprio autor no Prefácio

A ideia aqui é sobrepor o texto dessa historinha a uma imagem em que estão representadas as duas estruturas exigidas pelos modelos de operações em dois perfis 

  • o texto de Borges, que deu origem ao livro, associado a uma heterotopia e ao pensamento clássico;
  • efeitos desse texto sobre as familiaridades do pensamento que tem a nossa idade e a nossa geografia abalando todos os planos e todas as superfícies ordenadas que tornam para nós sensata a profusão dos seres; e fazendo vacilar e inquietando por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro;
  • associação da Utopia ao pensamento moderno (o impensado organizando as operações)
  • o texto da Enciclopédia chinesa uma taxinomia sob o pensamento clássico;
  • o limite do nosso pensamento: a impossibilidade de pensar isso. 
  • Que coisa é impossível pensar? e de que impossibilidade se trata?
  • a desordem pior que aquela do incongruente, ou da aproximação daquilo que não convém:
    • seria a utilização de um grande número de ordens possíveis na dimensão sem lei nem geometria do heteróclito;
  • o consolo das Utopias;
  • a inquietação causada pelas heterotopias;
    • porque solapam secretamente a linguagem;
    • porque impedem de nomear as coisas, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, 
    • porque arruínam de antemão a sintaxe
      • e não somente a sintaxe que constrói as frases
      • também aquela sintaxe, menos manifesta, que autoriza manter juntas, ao lado e em frente umas das outras, as palavras e as coisas.

Neste trabalho mostramos como essas coisas mencionadas nesse texto se relacionam com modelos de operações, e também modelos de organizações.Colocamos ao fundo da narrativa desse texto do Prefácio as diferentes configurações do pensamento em modelos de operações e de organizações, e como vão se alterando à medida que a narrativa prossegue.
O que exatamente Foucault via quanto a modos distintos de absorver o mundo

Em nenhum momento Foucault solicita ao seu leitor que faça um ato de fé no que ele diz.
Foucault argumenta sempre, a partir de dados levantados quanto ao modo de ser do pensamento em uma vasta plêiade de autores contemporâneos às mudanças. 

Foucault via no conjunto de teorias, modelos e sistemas em nossa cultura, um espectro de modelos com três segmentos, que decorre dessa visão, e que aponta para o futuro; e que lhe sugeria a necessidade de distinções entre esses diferentes modos de ser do pensamento, e todo o trabalho com a arqueologia feita no ‘As palavras e as coisas’: 

“Eis que nos adiantamos bem para além do acontecimento  histórico que se impunha situar – bem para além das margens cronológicas dessa ruptura que divide, em sua profundidade, a epistémê do mundo ocidental e isola para nós o começo de certa maneira moderna de conhecer as empiricidades. 

É que o pensamento que nos é contemporâneo 
e com o qual, queiramos ou não, pensamos, 
se acha ainda muito dominado 

  • pela impossibilidade, trazida à luz por volta do fim do século XVIII,
    de fundar as sínteses no espaço da representação.
  • e pela obrigação correlativa, simultânea, mas logo dividida contra si mesma,
    de abrir o campo transcendental da subjetividade
    e de constituir, inversamente, para além do objeto,
    esses quase-transcendentais que são para nós a Vida, o Trabalho, a Linguagem.

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas (Cartilha); Capítulo 7 – Trabalho, Vida e Linguagem; tópico I. As novas empiricidades

Veja isso em 

Os dois obstáculos, as duas pedras de tropeço, encontrados por Michel Foucault em seu caminho,

com especial destaque para o segundo obstáculo, a saber, o cumprimento da obrigação de abertura do campo transcendental da subjetividade constituindo, para além do objeto, o espaço em que habitam os modelos das ciências humanas.

Como se vê pelo ponto em que se insere na ‘Cartilha’ essa citação, o capítulo 7 de um trabalho em dez capítulos, quando escreveu esse trecho Foucault já tinha bem adiantado seu trabalho no ‘As palavras e as coisas’; nesse momento ele aponta dois obstáculos, duas pedras de tropeço que precisou enfrentar e que tiveram o poder de dilatar em muito o tempo necessário para fazer esse livro; ele via:  

    1. uma impossibilidade, a de fundar as sínteses [da representação para a empiricidade objeto de cada operação] no espaço da representação
    2. e uma obrigação a ser cumprida:
      a de abrir o campo transcendental da subjetividade
      e de constituir,
       inversamente, para além do objeto, 
      os quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem 

O espectro de modelos com três segmentos: AQUÉM, DIANTE e ALÉM do objeto

O espectro de modelos com três segmentos, que abriga teorias, modelos e sistemas desde o século XVII até o século XXI, usando essa análise de Michel Foucault decorre desse momento intenso de Foucault.   

    • AQUÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas com a impossibilidade 
      de fundar as sínteses dos objetos das operações no espaço da representação;
    • DIANTE do objeto – teorias, modelos e sistemas sem essa impossibilidade, com a possibilidade
      de fundar as sínteses dos objetos das operações, no espaço da representação;
    • para ALÉM do objeto – teorias, modelos e sistemas nos quais 
      foi aberto o campo transcendental da subjetividade e foram constituídos 
      os “quase-transcendentais Vida, Trabalho e Linguagem
      estes, os modelos no domínio das ciências humanas. 

A descontinuidade epistemológica em nossa cultura, posicionada por Michel Foucault entre 1775 e 1825

Veja isto em 

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825

segundo Michel Foucault

De um lado e de outro dessa descontinuidade epistemológica temos:

  • antes de 1775 – pensamento clássico ou idade clássica do pensamento, com modelos com a (im)possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação;
  • depois de 1825 – pensamento moderno ou a nossa modernidade no pensamento, com modelos com a possibilidade de fundar as sínteses da empiricidade objeto da operação, no espaço da representação.

Note que Adam Smith e David Ricardo estão posicionados em lados opostos com relação à fase de ruptura desse evento ao qual Foucault dá o status de evento fundador da nossa modernidade no pensamento.

Note ainda que todos os autores que formam a base do liberalismo clássico também estão posicionados por Foucault antes desse evento, em plena idade clássica.

eúdo da sanfona

A forma de reflexão que se instaura em nossa cultura e os dois perfis característicos das duas configurações do pensamento, segundo Michel Foucault

“Instaura-se uma forma de reflexão, 
bastante afastada do cartesianismo e da análise kantiana, 
em que está em questão, pela primeira vez, 
o ser do homem, nessa dimensão segundo a qual 
o pensamento se dirige ao impensado 
e com ele se articula.”
 
Cartilha; Cap. 9. O homem e seus duplos; V – O “cogito” e o impensado

Nesse excerto da Cartilha, Foucault coloca na proposição:

  • o ser do homem (o sujeito)
  • dirigindo-se ao objeto, o impensado,  (atributo do predicado do sujeito). 

Nota: Nessa forma de reflexão que se instaura ‘ o ser do homem’ não se dirige ao intangível!  

Intangível é uma qualidade de algo e não faz parte das propriedades originais e constitutivas desse algo.

Essa forma de reflexão sim, dirige-se ao impensado, o objeto por inteiro, em relação ao qual o Pensamento pode muito. Pode descobrir suas propriedades originais e constitutivas, propriedades substantivas, e não adjetivas, aparências, como é o intangível.
(Ref. Entrevista de Jorge Forbes)

Ao contrário do impensado, que mediante articulação no pensamento patrocinada pelo sujeito, pode ganhar o espaço da representação, o intangível na maioria dos casos, permanece exatamente isso: intangível.  

Veja as bases de sustentação e essa forma de reflexão em   

Os  perfis das duas configurações do pensamento, segundo o pensamento de Michel Foucault:
e Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento

Essa forma de reflexão é consistente e está na base do Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo.

Veja em imagens 

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho, o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, de 1817; veja também as diferenças entre esses dois conceitos, nas palavras de Michel Foucault

que ilustram essa forma de reflexão no depois da descontinuidade epistemológica, e a reflexão no período anterior.

O funcionamento de operações – do pensamento, as de produção, as de troca, antes e depois desse evento fundamental em nossa cultura,antes e depois

Veja isso na página: 

Funcionamento das operações para as configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos de 1775 e 1825

veja também o tempo respectivamente para cada operação levando em conta, no pensamento moderno, as operações de Construção de representação nova, e as de Instanciamento de representação previamente existente.

Note que a amplitude da visão do fenômeno ‘operações’ é muito maior no pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825. Neste caso a visão do fenômeno abrange a construção da representação para a empiricidade objeto, e também o instanciamento de representação previamente existente em um repositório de proposições explicativas da experiência formuladas de acordo com as regras da língua; enquanto que sob o pensamento clássico o fenômeno é visto apenas a partir da fase de instanciamento.

Veja que há uma correspondência entre as visões de operações no pensamento clássico e no princípio monolítico de trabalho de Adam Smith, de 1776, e pensamento moderno e o princípio dual de trabalho de David Ricardo, de 1817.

Certifique-se dessa correspondência visualizando as figuras feitas para os dois princípios de trabalho, o de Adam Smith e o de David Ricardo.

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho: o de Adam Smith, de 1776, e o de David Ricardo, de 1817

a página que o link acima dá acesso mostra também as diferenças entre esses dois princípios de trabalho nas palavras de Michel Foucault. Mas por favor certifique-se de que essas diferenças apontadas por Foucault entre os dois princípios de trabalho correspondem também, e são consistentes, com

as duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operações’ com as duas origens da essência da linguagem (interna e externa), e correspondentes duas possibilidades de análise de valor;

Uma Anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento

Uma Anatomia ou uma Cartografia para modelos de operações segundo a configuração do pensamento:

  • pensamento clássico, o de antes de 1775;
    • não há construção de representações; 
    • domínio: do Discurso e da Representação;
    • elemento central: Processo
    • ordem: Quadro de simultaneidades com um Sistema de categorias. (pode ser múltipla, e de uso simultâneo).
  • pensamento moderno, o de depois de 1825;
    • caminho da Construção da representação;
      • Lugar do nascimento do que é empírico;
        • Lugar desde onde se fala: domínio do Pensamento e da Língua;
        • Lugar do falado: domínio do Discurso e da Representação.
      • elemento central: Forma de produção;
      • ordem: única, dada pelas regras da gramática da língua utilizada.
      • origens de valor
        • designações primitivas;
        • linguagem de ação ou de uso: Repositório
    • caminho do Instanciamento da representação;
      • domínio do Discurso e da Representação;
        • Mercado, ou Circuito onde ocorrem as trocas;
      • linguagem de ação ou de uso: Repositório.

Anatomia ou cartografia dos modelos: os diferentes lugares onde o pensamento acontece, em função do perfil de pensamento e do caminho no qual seguem as operações.

  • operação sob o pensamento clássico, antes de 1775
    • O circuito das trocas (Mercado), 
    • no interior do domínio do Discurso e da representação.
  • operação sob o pensamento moderno, depois de 1825
    • operação de Construção da representação: o Lugar de nascimento do que é empírico;
    • no interior de dois domínios
      • o domínio do Pensamento e da língua;
        • o Lugar desde onde se fala;
      • o domínio do Discurso e da representação.
        • o Lugar do falado.
  • o Circuito das trocas (Mercado) nas operações de instanciamento de representação anteriormente existente sob o pensamento moderno.

Conceitos homônimos com significados diferentes entre o pensamento clássico e o moderno

Veja uma coleção de conceitos chamados pelos mesmos nomes, mas consignificados muito distintos, sob o pensamento clássico e sob o moderno:

Conceitos homônimos mas com significados diferentes entre a configuração do pensamento na idade clássica e no pensamento moderno

  • 0. as duas leituras para o fenômeno ‘operações’, as duas origens para a essência da linguagem e correspondentes duas possibilidades de análise de valor;
  • 1. dois conceitos para o que seja um verbo;
  • 2. dois conceitos para o que seja ‘Classificar’;
  • 3. dois papéis atribuídos ao homem;
  • 4. dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento;
  • 5. duas sintaxes envolvidas na construção de representação nova;
  • 6. dois conceitos para História;
  • 7. dois espaços gerais do saber;
  • 8. dois conceitos para tempo;
  • 9. a proposição como bloco construtivo padrão fundamental e genérico para construção de representações.
  • 10. Tabela de propriedades das duas configurações do pensamento.

A análise das riquezas: (riquezas: um domínio, solo e objeto da “economia” na idade clássica, segundo Michel Foucault)

A análise das riquezas, junto com a gramática geral e a história natural, no pensamento clássico- o de antes de 1775, são contrapostas à análise da produção, filologia e biologia no pensamento de depois de 1825.

“Nem vida, nem ciência da vida na época clássica;
tampouco filologia.

Mas sim uma história natural, uma gramática geral.
Do mesmo modo,
não há economia política

porque, na ordem do saber,
a produção não existe.

Em contrapartida,
existe, nos séculos XVII e XVIII,

uma noção que nos permaneceu familiar,
embora tenha perdido para nós sua precisão essencial.
Nem é de “noção” que se deveria falar a seu respeito,
pois não tem lugar no interior
de um jogo de conceitos econômicos

que ela deslocaria levemente,
confiscando um pouco de seu sentido
ou corroendo sua extensão.

Trata-se antes de um domínio geral:
de uma camada bastante coerente
e muito bem estratificada,

que compreende e aloja, como tantos objetos parciais,
as noções de valor, de preço, de comércio, de circulação,
de renda, de interesse.


Esse domínio,

solo e objeto da “economia” na idade clássica,
é o da riqueza.

 Inútil colocar-lhe questões
vindas de uma economia de tipo diferente,

organizada, por exemplo,
em torno da produção ou do trabalho;

 inútil igualmente analisar seus diversos conceitos
(mesmo e sobretudo se seus nomes
em seguida se perpetuaram,

com alguma analogia de sentido),
sem levar em conta
o sistema em que assumem sua positividade.”

As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 6 – Trocar; tópico I. A análise das riquezas

Sem fazer um alinhamento filosófico das ideias, das noções, para respectivamente cada período histórico em nossa cultura, o padrão é ficar com a análise de riquezas do pensamento filosófico clássico. (o que nem é difícil de perceber que é feito, em nosso meio)

O mínimo que somos chamados a fazer é esclarecer as razões pelas quais o conceito ‘riquezas’ é tão largamente utilizado; e as razões pelas quais Michel Foucault escreve “economia” assim, entre aspas, quando se refere ao período clássico.

As duas visões do fenômeno ‘operações’ com diferentes abrangências, e as respectivas duas origens do valor carregado pelas proposições para as representações; as correspondentes duas configurações de funcionamento da própria linguagem e do pensamento, e os modelos resultantes em cada caso
As diferenças nas visões de ‘operações’ decorrentes do posicionamento do ponto de início de leitura do fenômeno, podem ser vistas emFuncionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre 1775 e 1825, segundo Michel FoucaultE essas mudanças estão refletidas no tópico ‘Uma anatomia ou uma Cartografia de modelos de operações em função da configuração do pensamento’ Para entender melhor os elementos de imagem 

  • ‘designações primitivas’
  • ‘linguagem de ação ou raiz’

que representam as origens de valor atribuído à proposição, veja nas palavras de Michel Foucaultas duas configurações da linguagem correspondentes às duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’, que se distinguem pelas duas diferentes origens para o valor atribuído às proposições e por elas carregado para a representação. Resumidamente, podemos ler operações posicionando o início da leitura desse fenômeno de duas maneiras diferentes:

  1. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ colocado no  cruzamento da disponibilidade entre dois objetos intervenientes na operação de troca: o que é dado e o que é recebido, testando as condições de troca;
  2. ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ antes da disponibilidade de um dos objetos, testando desta vez a permutabilidade futura desse objeto e não imediatamente as condições de troca.

O carregamento de valor na proposição em cada caso:

  1. valor é carregado diretamente na proposição desde dentro do espaço da representação;
  2. valor é carregado na proposição desde fora do espaço da representação, com origens de valor externas ao espaço da representação, provenientes de:
    1. designações primitivas;
    2. linguagem de ação ou raiz.

Operações calcadas no Princípio Dual de trabalho de David Ricardo têm valor carregado na proposição e por elas para as representações como no segundo caso acima.

Comentários sobre a entrevista de Jorge Forbes ao canal Inconsciente coletivo em 28/07/2020

Pontos da entrevista de Jorge Forbes ao canal Inconsciente coletivo

Jorge Forbes: "estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos". 28/07/2020

Essa alusão a uma revolução nos laços sociais dos últimos 2800 anos é desconsideração histórica do modo como se alterou ao longo do tempo o modo de ser fundamental do pensamento e suas condições de possibilidade. 

Gostaria que Jorge Forbes relesse a Cartilha. 

Nesse meio tempo, e por falar não em revoluções mas em descontinuidades epistemológicas em nossa cultura, podemos ver uma delas

Cronologia da descontinuidade epistemológica ocorrida em nossa cultura entre 1775 e 1825

segundo Michel Foucault, na qual movimentos do pensamento muito mais recentes e importantes surgiram em tempo muito mais próximo do nosso tempo.

Esse título do vídeo da entrevista de Jorge Forbes imediatamente me lembra do movimento Reengenharia, e da capa do livro de mesmo nome de Michael Hammer “– Esqueça o que você sabe sobre como as empresas devem funcionar: quase tudo está errado” trombeteava ele. Seja em Hammer, ou em Forbes, nos dois casos havia e há, a denúncia, como se atual fosse, de uma revolução ocorrida em passado remoto. A Cartilha mostra como e por que isso é verdade.

Se estou entendendo o que ele chama de ‘época anterior’ isso já tem um nome: idade clássica ou pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo a Cartilha. E chamado por esse nome, suficiente, podemos prescindir do nome fantasia terra1. Usando ‘pensamento filosófico clássico’ podemos fazer o relacionamento com o modo de ser do pensamento de autores importantes desse período, como Adam Smith, John Locke, Jeremy Bentham, etc.  E usando a contraparte ‘pensamento moderno’ – que possivelmente Forbes chamará de terra2 sem necessidade e com desvantagens – podemos estabelecer relações com pensadores como David Ricardo, Franz Bopp, Georges Cuvier, Sigmund Freud, John Maynard Keynes, entre muitos outros.

o incômodo de Jorge Forbes com a noção de 'norma' e o modelo composto padrão e genérico, constituinte das ciências humanas em geral, proposto por Michel Foucault.

“Me incomoda a noção de norma no sentido de que você sai de um laço social estandardizado, padronizado, rígido, hierárquico, linear, focado, que são algumas das características que eu entendo da época anterior que eu chamo de terra1.” Ref. Jorge Forbes, em Estamos vivendo a maior revolução dos laços sociais dos últimos 2800 anos do canal Inconsciente coletivo.

Quanto ao incômodo de Forbes com a noção de ‘norma’, isso me remete imediatamente de novo à Cartilha, que me permite uma visão de conjunto muito mais completa e útil para quem pensa em formular e configurar, e depois operar com sucesso, modelos no domínio das ciências humanas: a ‘norma’ que incomoda Forbes, é a expressão das condições requeridas por uma ‘função’ que visa a estabilidade temporal, em mais de um aspecto, compartilhada, da solução conseguida para a obtenção prática dessa função.

Vale a pena examinar o que se configura quase como 

Um ‘manual’ para projeto e construção de modelos no domínio das ciências humanas

em três tempos:

  • o espaço geral dos saberes sob o pensamento moderno chamado por Foucault de Triedro dos saberes; com as faces e eixos do Triedro dos saberes;
  • a classe de modelos das ciências humanas;
  • o uso dos pares de modelos constituintes fora do domínio próprio em que foram formados.

examinando o modelo constituinte padrão das ciências humanas composto de uma combinação ponderada dos pares constituintes das ciências do eixo epistemológico fundamental, as ciências da Vida, do Trabalho e da Linguagem:

“Assim, estes três pares, função e norma, conflito e regra, significação e sistema, cobrem, por completo, o domínio inteiro do conhecimento do homem.” Cartilha; Cap. 10 – As ciências humanas; tópico I – O triedro dos saberes

Esse excerto da Cartilha dá-nos conta de que esses três pares de modelos constituintes, das ciências 

  • da Vida (Biologia) par constituinte  [função-norma] 
  • do Trabalho (Economia)  par constituinte [conflito-regra] e 
  • da Linguagem (Filologia) par constituinte  [significação-sistema] 

estão na base de toda e qualquer ciência humana, incluindo a economia política, e a biopolítica, e também a análise da produção. 

Forbes supostamente está analisando o que acontece nas, e com as organizações empresariais e, portanto, está elaborando bem no campo de uma ciência humana capaz disso. Essa ciência humana que segundo Foucault, tem esse modelo constituinte padrão no qual 

  • o par constituinte dominante é escolhido por quem formula o modelo, 
  • e os coeficientes que determinam o mix da composição no modelo específico, que estabelecem a proporção em que entram no modelo os três pares constituintes são também escolhidos pelo analista formulador. 

Isso evidencia que esse incômodo de Forbes com a ‘norma’ precisa ser bastante ampliado quando se fala de laços sociais porque estes estão afetos, 

  • desde logo às ‘funções’ normatizadas pela ‘norma’ (o par constituinte do quase-transcendental Vida), 

mas também estão regidos pelos pares constituintes dos outros dois quase-transcendentais: 

  • [conflito-regra] da Economia, 
  • e [significação-sistema] da Filologia.

É claro que podemos desconsiderar esse mapeamento admirável do espaço dos saberes moderno feito por Foucault e pensar de modo compartimentado e muito mais incompleto. 

Mas por que exatamente faríamos isso?

sobre as qualidades que Jorge Forbes atribui à época anterior, que ele chama de terra1 (um rótulo dispensável se significar pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo Michel Foucault.

  1. estandardização,
  2. padronização,
  3. rigidez,
  4. hierarquia,
  5. linearidade,
  6. focalização

Por favor acompanhe a operação de obtenção de representação (projeto) para o objeto da operação, que ocorre no caminho da Construção da representação, que acontece no interior do ‘Lugar do nascimento do que é empírico’, sob o pensamento moderno, o de depois de 1825, da qual resulta uma nova representação para a empiricidade objeto dessa operação, um modelo pertencente ao segmento DIANTE do objeto. Isso pode ser visto 

Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois 
da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Princípios organizadores do pensamento moderno, o de depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825

Agora, quanto às condições de possibilidade do pensamento para o depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825, especificamente quanto aos princípios organizadores do pensamento nesse período, veja o que diz Foucault:

 “De sorte que se vêem surgir, 
como princípios organizadores desse espaço de empiricidades, 
a Analogia e a Sucessão
de uma organização a outra, 
o liame, com efeito, não pode ser mais a identidade de um ou vários elementos, 
mas a identidade da relação entre os elementos 
(onde a visibilidade não tem mais papel) e da função que asseguram; (…) 
Cartilha; Cap. 7. Os limites da representação; tópico I. A idade da história

Se acompanhamos a mecânica de funcionamento de uma operação de construção de representação (projeto) para alguma coisa – Foucault chama essa coisa de empiricidade objeto) sabemos que é impossível concluir essa construção de uma representação sem construir uma hierarquia: o objeto composto análogo é estruturado hierarquicamente.

Sobre a propriedade 4. hierarquia

Toda e qualquer representação construída tendo Analogia e Sucessão como princípios organizadores do pensamento terá como resultado um objeto análogo composto de uma coleção de objetos análogos relacionados entre si em uma hierarquia.

Para focalizar esta argumentação, deixo de comentar os outros atributos de terra1.

Freud explica ? Freud implica: uma frase de efeito que depende de qual seja a configuração do pensamento

Essa frase (de efeito) depende de qual seja a visão de operações adotada – e em que configuração do pensamento, que o vídeo de Forbes não permite  perceber claramente qual seja.

Dito do modo como foi dito: 

  • se posta sob o perfil da configuração do pensamento filosófico clássico, o de antes de 1775 segundo Foucault, a frase se justifica; mas estará em um pensamento característico da idade clássica, no qual as noções de sujeito e de objeto não cabem na paleta de ideias do modelo de operações. 
  • mas sob o perfil do pensamento filosófico moderno, o de depois de 1825,  ‘explicação’ consiste em uma busca por origem, condições de possibilidade e de generalidade dentro de limites isto é, pelos elementos de sustentação na experiência de uma Forma de produção, e o resultado é a construção de representação nova. Logo, não é mais verdade que no ‘explica’, agora sob o perfil do pensamento filosófico moderno, tenhamos um saber anterior ao ato, porque é exatamente o ato o elemento constituinte de saber novo que não existia antes.

Acabamos de ver o funcionamento da operação de construção de uma representação (projeto) para uma empiricidade objeto. Fica claro – entendida essa sistemática de funcionamento – que a operação tem início sem conhecimento sobre o que é objeto de explicação, e termina com esse conhecimento.

direcionamento do pensamento: ao intangível, ou ao impensado?

O que gera uma vacina para o Sars-Cov-2 é uma operação na qual o pensamento do cientista que tendo em vista os aspectos ainda impensados, porque não pensados, desse vírus,

  • coloca-se como sujeito de uma operação científica na qual
  • o vírus é o atributo do predicado do cientista sujeito dessa operação, e assim é o objeto da operação da ciência,
    • que funciona à luz do que se sabe sobre vacinas
    • e sobre sistema imunológico humano, entre outros saberes.

Essa operação científica considera entre outras coisas o que a ciência sabe sobre vírus em geral e o Sars-Cov-2 em particular. 

Tangibilidade ou intangibilidade são qualidades, aparências, ou propriedades não-originais e não-constitutivas desse vírus.

O interesse da ciência é pelas propriedades sim-originais e sim-constitutivas desse vírus, que são essas que podem levar a conquistas como por exemplo, uma vacina. 

Nota: Nessa forma de reflexão que se instaura no pensamento filosófico de depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825,’ o ser do homem’ não se dirige ao intangível!  

Intangível é uma qualidade de algo e não faz parte das propriedades originais e constitutivas desse algo.

Essa forma de reflexão sim, dirige-se ao impensado, o objeto por inteiro, em relação ao qual o Pensamento pode muito. Pode descobrir suas propriedades originais e constitutivas, propriedades substantivas, e não adjetivas, aparências, como é o intangível.
(Ref. Entrevista de Jorge Forbes)

Ao contrário do impensado, que mediante articulação feita pelo pensamento e patrocinada pelo sujeito, pode ganhar o espaço da representação (e a vacina!), o intangível na maioria dos casos, permanece exatamente isso: intangível.

Há uma confusão entre os vocábulos intangível e impensado. 

Veja as bases de sustentação e essa forma de reflexão em   

Os  perfis das duas configurações do pensamento, segundo o pensamento de Michel Foucault:
e Os dois tipos de reflexão assumidos pelo pensamento

Essa forma de reflexão é consistente e está na base do Princípio Dual de Trabalho de David Ricardo.

Veja em imagens 

Os dois conceitos filosóficos para o que seja Trabalho, o de Adam Smith, de 1776 e o de David Ricardo, de 1817; veja também as diferenças entre esses dois conceitos, nas palavras de Michel Foucault

que ilustram essa forma de reflexão no depois da descontinuidade epistemológica, e a reflexão no período anterior.


Comentários sobre a narrativa de Christian Dunker no vídeo do canal Falando nisso 150 – Signo, significação e significado de 08/10/2017

O movimento do pensamento entre a psicanálise de Freud e a de Lacan: uma mudança desde uma psicanálise (alegadamente) baseada na representação em Freud, para uma outra baseada fora da representação em Lacan

Na Cartilha, Foucault não hesita em classificar Freud como um autor moderno, e caracteriza o pensamento clássico como ‘aquele para o qual a representação existe’.

Do texto do livro As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas; Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia, de Michel Foucault encontramos subsídios para afirmar que o autor discorda frontalmente dessa afirmativa de que a psicanálise de Freud tivesse suas bases na representação; nesse texto Foucault mostra que, ao contrário, o pensamento de Freud já tem suas bases fora da representação; e expõe como e por que faz esse juízo mostrando o funcionamento da psicanálise – tendo como elemento organizador dessa argumentação o modelo constituinte padrão, comum a todas ciências humanas por ele desenvolvido nesse livro, um modelo composto pelos pares de modelos constituintes das ciências da Vida (Biologia) [função-norma]; do Trabalho (Economia) [conflito-regra]; da Linguagem (Filologia) [significação-sistema].

Isso permite pensar que a razão de ser da psicanálise de Lacan, encontre seu fundamento em outro movimento de pensamento feito por ele, porque a psicanálise de Freud já estava formulada desde fora da representação.

Em que consiste, então, a contribuição feita por Lacan?

Veja aqui um excerto do que Foucault expõe a esse respeito.

Em resumo:

“E, nessa região onde a representação fica em suspenso,
à margem dela mesma, aberta, de certo modo ao fechamento da finitude,
desenham-se as três figuras pelas quais 

  • a vida, com suas funções e suas normas, vem fundar-se na repetição muda da Morte,

  • os conflitos e as regras, na abertura desnudada do Desejo, 

  • as significações e os sistemas , numa linguagem que é ao mesmo tempo Lei.

Sabe-se como psicólogos e filósofos denominaram tudo isso:
mitologia freudiana. 

Era realmente necessário que este empenho de Freud assim lhes parecesse;
para um saber que se aloja no representável,
aquilo que margeia e define, em direção ao exterior,
a possibilidade mesma da representação
não pode ser senão mitologia.”
As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. 10 – As Ciências humanas; tópico V – Psicanálise e etnologia

Uma aparente descontinuidade epistemológica na apresentação das teorias modelos e sistemas relacionados à psicanálise no vídeo 150;
e uma continuidade epistemológica na apresentação de teorias, modelos e sistemas do liberalismo e variantes, no vídeo 254

No vídeo 150 há a percepção de um movimento de pensamento importante, – a alteração quanto às bases fundamentais das psicanálises de Freud e de Lacan – nada mais nada menos do que uma descontinuidade epistemológica.

Embora segundo o pensamento de Michel Foucault a psicanálise de Freud já tivesse suas bases fora da representação, mas essa mudança de bases significa uma alteração epistemológica.

Evento dessa mesma natureza, uma descontinuidade epistemológica, também aconteceu no período abrangido pelo vídeo 254 para as produções do pensamento associadas ao liberalismo, mas deixa de ser considerada nos questionamentos nele feitos.

Enquanto no vídeo 150 os modelos estão predominantemente no domínio da Linguagem, no liberalismo e variações, estão no domínio das ciências do Trabalho (Economia).

Veja em Os dois conceitos filosóficos para o que seja ‘Trabalho’: o de Adam Smith, de 1776, e o de David Ricardo, de 1817, e as diferenças entre esses dois conceitos segundo Michel Foucault.

Entre esses dois pensadores há uma diferença de amplitude da visão do fenômeno ‘operação’ entre esses dois princípios para trabalho. Na parte inferior da página que o link acima dá acesso, a explicação dada por Foucault deixa  bem clara essa diferença de amplitude na visão de ‘operações’. Ricardo inclui também a construção de representação nova enquanto que Smith não.

Essa alteração no modo como uma operação é vista implica em uma reconfiguração da linguagem no que ela tem de essencial: o modo como a proposição é formada, e como valor é carregado nela.

Isso pode ser visto em As duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do fenômeno ‘operações’ e também na argumentação abaixo.

Havia uma confusão em Adam Smith, que consistia em estabelecer uma assimilação entre:

  • o trabalho como atividade de produção;
  • e o trabalho como mercadoria que se pode comprar e vender.

Essa assimilação, feita em Adam Smith, passa a ser em Ricardo uma distinção entre:

  • essa força, esse esforço, esse tempo do operário que se compram e se vendem, tomados como mercadoria que se pode comprar e vender,
  • e essa atividade que está na origem do valor das coisas, tomada como atividade de produção.

distinção essa que, segundo Foucault, passa a ser feita, pela primeira vez, e de forma radical, pelo pensamento de David Ricardo, em nossa cultura; e isso implica em uma expansão da visão do fenômeno ‘operações’.

Vista desse modo,

  • como uma assimilação, entre ‘atividade de produção’ e ‘mercadoria que se pode comprar ou vender’ ou ‘força, esforço, tempo do operário, que se compram e se vendem’, em Adam Smith, ou como uma distinção, entre essas duas coisas, no pensamento de David Ricardo,
  • pode ficar difícil perceber que essa mesma alteração feita em Ricardo na economia, é a mesma que Lacan fez na sua psicanálise;

Seria necessário perceber que com o termo ‘atividade de produção’ compreende-se a produção de algo ainda inexistente o que alarga a visão de operações para o caminho da Construção de representação nova; mas encaixando essas duas coisas em uma visão ampla do que sejam operações, de todos os tipos, obtida entre outros lugares na descrição de Foucault sobre as duas configurações da linguagem,

  • e vendo o que acontece nas operações, pelas duas origens do valor carregado pela proposição para a representação como decorrência das duas possibilidades de inserção do ponto de início da leitura do que seja essa operação – se antes ou se no ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido – e os efeitos em cada opção, (veja o link acima)

vê-se que os dois movimentos – o de Ricardo e o de Lacan são idênticos quanto a suas bases no pensamento, porque:

  • O pensamento de Adam Smith leva a um modelo de operações com ponto de leitura posicionado no ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, ou o ponto em que os objetos envolvidos em uma operação de troca estão disponíveis; a operação de processamento de informações sob Adam Smith abrange o instanciamento, pelo desencadeamento de Processo anteriormente formulado, de representação anteriormente formulada e configurada dentre alternativas já existentes. Nesse tipo de operações sob o pensamento clássico, não há construção de representações novas;
  • No pensamento de David Ricardo o modelo de operações tem ponto de leitura posicionado antes da disponibilidade dos objetos envolvidos em uma possível futura operação de troca. E abrange toda a operação no caminho da Construção de representação nova.

E dessa forma

  • colocar o ponto de início da leitura exatamente no cruzamento entre disponibilidades do que é dado e o que é recebido (com a disponibilidade simultânea dos dois objetos envolvidos na operação de troca), coloca o fenômeno ‘operação’ na etapa de instanciamento de objeto cuja representação foi anteriormente feita;
    • e o valor carregado pela proposição para a representação é atribuído diretamente na proposição, determinando a configuração correspondente da linguagem;
  • e colocar o início de leitura antes desse ponto de disponibilidade, (com a indisponibilidade de pelo menos um dos objetos envolvidos na operação de troca) implica em investigar a permutabilidade e obriga a ‘operação’ a incluir a etapa de construção da representação do objeto ainda não representado, que será levado ao circuito das trocas depois de instanciado; e também a posterior operação de instanciamento, e o valor carregado pela proposição terá sua origem
    • nas designações primitivas
    • e na linguagem de ação.

as duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operações’ segundo o posicionamento do ponto de início de leitura no cruzamento das disponibilidades do que é dado e o que é recebido na troca; ou antes da possibilidade da troca, quando um dos objetos envolvidos não está disponível , e correspondentes origens da essência da linguagem e do valor carregado pela proposição para a representação.

Podemos ver isso sob o ponto de vista das alterações na própria linguagem em decorrência da visão que temos do fenômeno ‘operações’ de pensamento ou outra, e de acordo com as explicações de Michel Foucault:

i)      As diferenças de funcionamento da linguagem entre as psicanálises de Freud e de Lacan, e em geral, de funcionamento da linguagem em qualquer construção do pensamento, tendo em vista quais sejam as bases em que se sustentam essas construções do pensamento, se com base na representação ou se com base fora da representação.

As duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura do fenômeno ‘operações’ – de qualquer tipo – e a análise das diferentes origens do valor carregado pelas proposições para as representações em função da inserção do ponto de início de leitura de ‘operações’.

Esse link mostra uma figura com a visão ampla e completa do que entendemos por operações com representações, incluindo operações de troca, completas, mostrando os dois pontos nos quais podemos inserir o início da leitura que fazemos desse fenômeno:

  • No momento em que os dois objetos envolvidos na operação de troca estão já disponíveis;
  • Em um ponto anterior a esse, quando pelo menos um dos objetos ainda não está disponível.

A página mostra:

(1)    O que não muda entre as duas possibilidades de inserção do ponto de leitura de ‘operações’

A proposição é o bloco construtivo padrão fundamental para construção de representações.

“A proposição é para a linguagem
o que a representação é para o pensamento:
sua forma, ao mesmo tempo mais geral e mais elementar
porquanto, desde que a decomponhamos,
não encontraremos mais o discurso,
mas seus elementos como tantos materiais dispersos.”
As palavras e as coisas; Cap. 4 – Falar; tópico III – Teoria do verbo

A representação carregada de valor como condição para que uma coisa possa representar outra em uma operação de troca.

(…) “Em outras palavras, para que, numa troca,
uma coisa possa representar outra,
é preciso que elas existam já carregadas de valor;
e, contudo, o valor só existe no interior da representação.”
As palavras e as coisas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

(2)    O que sim, muda entre essas duas possibilidades de inserção do ponto de início de leitura

Antes de mais nada, muda a abrangência da visão que temos do que seja uma operação, em decorrência do ponto de inserção do início de leitura que fazemos desse fenômeno. Há duas possibilidades de inserção desse ponto de início de leitura de operações:

  • No ponto de cruzamento entre o que é dado e o que é recebido, já disponíveis os dois objetos intervenientes em uma operação de troca;
  • Antes desse ponto, quando ainda um dos objetos não está disponível

A origem do valor carregado pelo veículo de carregamento de valor na representação é nos dois casos, a proposição, sempre, porém em linguagens essencialmente diferentes e representações  com origens de valor distintas.

No primeiro caso o valor é carregado na proposição diretamente. Aliás, a proposição já chega carregada de valor.

No segundo caso, o valor chega à proposição no bojo de uma operação de construção da representação para o objeto ainda não disponível. Isso em outras palavras quer dizer durante o projeto desse objeto. E as fontes de valor neste caso são

  • as designações primitivas;
  • e a linguagem de ação ou de uso.

ii)    O funcionamento da troca em cada uma das duas possibilidades de leitura do fenômeno ‘operação’.

A citação acima prossegue da seguinte forma:

(…) “o valor só existe no interior da representação

  • atual [representação do objeto envolvido na troca já existente]

  • ou possível [objeto cuja representação foi construída quando no teste de permutabilidade]

 isto é, no interior

  1. da troca [objetos envolvidos na operação de troca já existentes]

  2. ou da permutabilidade [a prospecção da possibilidade da troca com a construção da representação do objeto a ser levado ao circuito das trocas, se possível]”

As palavras e as coisas; Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

“Daí duas possibilidades simultâneas de leitura:

  • uma analisa o valor no ato mesmo da troca,
    no ponto de cruzamento entre o dado e o recebido;
  • outra analisa-o como anterior à troca
    e como condição primeira para que esta possa ocorrer”

A primeira dessas duas leituras corresponde a uma análise que coloca e encerra
toda a essência da linguagem no interior da proposição;
e a outra, a uma análise que descobre essa mesma essência da linguagem

  • do lado das designações primitivas
  • e da linguagem de ação ou raiz
  1. “no primeiro caso, com efeito,
    a linguagem encontra seu lugar de possibilidade
    numa atribuição assegurada pelo verbo
    – isto é, por esse elemento da linguagem em recuo relativamente a todas as palavras
    mas que as reporta umas às outras;
    o verbo, tornando possíveis todas as palavras da linguagem
    a partir de seu liame proposicional,
    corresponde à troca que funda,
    como um ato mais primitivo que os outros,
    o valor das coisas trocadas e o preço pelo qual são cedidas;
  2. a outra forma de análise,
    a linguagem está enraizada fora de si mesma
    e como que na natureza, ou nas analogias das coisas;
    a raiz, o primeiro grito que dera nascimento às palavras
    antes mesmo que a linguagem tivesse nascido,
    corresponde à formação imediata do valor,
    antes da troca e das medidas recíprocas da necessidade.”

    As palavras e as coisas: Cap. 6 – Trocar; tópico V. A formação de valor

Veja, por favor, o funcionamento das operações sob o pensamento clássico, o de antes de 1775 e o moderno, depois de 1825 em Funcionamento das operações para configurações do pensamento de antes e de depois da descontinuidade epistemológica ocorrida entre os anos 1775-1825

Podemos ver, do entendimento de como se desenvolvem as operações em um caso e em outro, a correspondência bastante estreita entre as explicações dadas por Foucault na citação acima.

Veja também os dois conceitos para o que seja um verbo, 

Conceitos homônimos mas com significados diferentes entre a configuração do pensamento na idade clássica e no pensamento moderno

Comentários sobre a narrativa de Christian Dunker no vídeo do canal Falando nisso 254 – Neoliberalismo e sofrimento de 31/08/2019

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