4. Roteiro & Inspiração: as pedras no caminho de Michel Foucault e
caminhos e descaminhos de Humberto Maturana
Roteiro e Inspiração: as pedras no caminho de Foucault e
os caminhos de Humberto Maturana
A pedra no caminho de Foucault, nosso roteiro: com uma impossibilidade e uma obrigação:
a) a impossibilidade de fundar as sínteses [da empiricidade objeto no espaço da representação] e
b) a constituição para além do objeto, dos quase transcendentais Vida,Trabalho e Linguagem
Os caminhos (e rotas) de Maturana, nossa inspiração: caminhos (e descaminhos) de Humberto Maturana finalizando com as críticas feitas à autopoiese, e aceitas por Francisco Varela
“Eis que nos adiantamos bem para além É que o pensamento que nos é contemporâneo A percepção da contaminação do pensamento com o qual pensamos,
pela impossibilidade de fundar as sínteses na representação
do acontecimento histórico que se impunha situar
– bem para além das margens cronológicas
dessa ruptura que divide, em sua profundidade,
a epistémê do mundo ocidental
e isola para nós o começo
de certa maneira moderna de conhecer as empiricidades.
e com o qual, queiramos ou não, pensamos,
se acha ainda muito dominado
pela impossibilidade,
trazida à luz por volta do fim do século XVIII,
de fundar as sínteses no espaço da representação
e pela obrigação
correlativa, simultânea,
mas logo dividida contra si mesma,
de abrir o campo transcendental da subjetividade
e de constituir inversamente,
para além do objeto,
esses “quase-transcendentais” que são para nós
a Vida, o Trabalho, a Linguagem.”
As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. VIII – Trabalho, Vida e Linguagem;
tópico I. As novas empiricidades
a percepção dessa contaminação, dominação mesmo,
do pensamento com o qual ‘queiramos ou não‘ pensamos,
– hoje em dia, e aqui e agora –
por configurações de pensamento
com a aludida possibilidade, e também com a impossibilidade
de fundar as sínteses – da empiricidade objeto – no espaço da representação
muda completamente os domínios e os lugares onde ocorrem as operações,
as paletas de ideias ou elementos de imagem, assim como as estruturas e os relacionamentos entre eles.
A nova forma de reflexão se instaura no pensamento em nossa cultura,
o motor constituinte “dessa maneira moderna de conhecer empiricidades”

“Instaura-se um tipo de reflexão
bastante afastado do cartesianismo
e da análise kantiana,
em que está em questão,
pela primeira vez,
o ser do homem,
nessa dimensão segundo a qual
o pensamento
se dirige ao impensado
e com ele se articula.”
As palavras e as coisas:
uma arqueologia das ciências humanas;
Cap. IX – O homem e seus duplos ;
tópico V – O “cogito” e o impensado.

no caminho de Michel Foucault


Há diferentes modelos
que formulamos para
visões de ocorrências
no espaço-tempo x, y, z e t.
Ao suspeitar
da contaminação do pensamento
– do nosso, daquele com o qual queiramos ou não pensamos –
por essa impossibilidade de fundar as sínteses no espaço da representação, ele manifesta sua percepção de que de fato isso acontece em volta de nós e conosco.
Esses modelos,
diferentes em seus fundamentos,
são usados juntos
e/ou simultaneamente
no mesmo domínio e ambiente
em um pensamento
contaminado
por duas epistemologias,
ou por duas maneiras
de conhecer
aquilo que dizemos
que conhecemos.
Existem modelos,
todos em uso atualmente,
que podem ser agrupados
em duas famílias:
- aqueles com a possibilidade
- e aqueles com a impossibilidade
de fundar as sínteses
– da empiricidade objeto da operação-
no espaço da representação.
Essa a distinção entre modelos
com e modelos sem essa possibilidade
de fundar as sínteses
[da empiricidade objeto da operação]
no espaço da representação,
que Michel Foucault faz sugere que analisemos os modelos de operações e de organizações existentes, isto é, nos modelos que usamos hoje, em busca de características de características, ou características de segunda ordem, pelas quais podem ser associados com o pensamento antes, depois da descontinuidade epistemológica de 1775-1825, oferecendo os necessários elementos para identificação.
A figura na coluna do meio acima mostra a configuração do pensamento (o clássico, de antes de 1775), com a impossibilidade de fundar as sínteses (da(s) empiricidade(s) objeto da operação) no espaço da representação.
Clicando nessa figura, a animação mostrará as alterações em toda a configuração do pensamento, para levantar essa impossibilidade.
A alteração se passa no lado direito da figura.
A primeira coisa que muda é o tipo de reflexão que se instaura.
Como decorrência, muda toda a paleta de ideias, ou elementos de imagem;
Muda ainda o perfil do pensamento em cada configuração:
- o referencial
-
- a ordem pela ordem
- dá lugar à utopia do não articulado;
-
- os princípios organizadores
-
- que eram Caráter e Similitude
- passam a ser Analogia e Sucessão;
-
- e os métodos,
-
- que eram identidade e semelhança
- passam a ser Análise e Síntese.
-
A pedra fundamental do pensamento de Maturana:
No final dos anos 1950, bem no início do seu trabalho, Maturana fazia:
- objeções ao ‘fazer’ dos pesquisadores em IA do MIT do final dos anos 1950;
- propostas de alterações na modelagem dos fenômenos biológicos.
Vinte anos depois, Francisco Varela considerava procedentes algumas das críticas recebidas ao seu trabalho conjunto com Maturana, a autopoiese.
A figura 2,
de Maturana

ou O explicar e a experiência, de Maturana
A Figura 2 – Diagrama ontológico no capítulo Reflexões epistemológicas do livro Cognição, Ciência e Vida cotidiana; e ainda
Figura 2 – O Explicar e a experiência, no capítulo Linguagem, Emoções e Ética nos afazeres políticos do livro Emoções e Linguagem na Educação e na Política; (conforme original de Maturana).
Vamos usar essa figura para mostrar as paletas de ideias ou elementos de imagem requeridos para modelagem das operações de um e de outro lado da figura de acordo com o entendimento adotado, ou a episteme utilizada pelo pensamento
objeções,
de Maturana

Operação na Figura 2 – LE: sistema relativo de anterioridade ou simultaneidade das coisas entre si
As objeções
feitas por Maturana,
bem no início do seu trabalho,
ao modo como os pesquisadores em IA do MIT faziam seus modelos
– inspirados nos modelos biológicos –
pelo que eles mesmos diziam, segundo Maturana, são fundamentadas
no modo como funciona o pensamento filosófico clássico, o de antes da descontinuidade epistemológica
ocorrida entre 1775 e 1825
no relato de Michel Foucault.
Por favor veja isso na animação:
propostas,
de Maturana

do que ele via como um erro de modelagem
Operação na Figura 2 – LD: sistema absoluto de articulação do impensado com um objeto análogo passível de representação.
Ao mesmo tempo,
as propostas
que ele fez nesse início do seu trabalho,
para resolver esse problema
são totalmente consistentes com o pensamento de David Ricardo, um pensador marcadamente de depois desse evento fundamental em nossa cultura.
Os dois blocos do ‘dizer’ de Maturana
na operação de Explicar com Reformular, no lado direito da figura, um para o Operar e outro para o Suporte ao operar, correspondem à mesma separação que Ricardo fez e incorporou ao seu
Note que a formulação feita para Trabalho por Ricardo é claramente construtiva e também faz a separação entre dinâmica e suporte à dinâmica –
os dois blocos imaginados por Maturana.
análise de críticas recebidas,
feita por Francisco Varela

Entretanto há algo surpreendente no livro
‘De máquinas e de seres vivos:
Autopoiese – a Organização do vivo;
Prefácio à segunda edição;
tópico: Além da autopoiese;
sub-tópico: Enacção e cognição,
de autoria de Francisco Varela.
A surpresa está em que
entre as críticas à autopoiese que Francisco Varela aceita como procedentes
está a que afirma que a autopoiese
tem formulação fraca,
explicando ele, que a formulação dada
é fraca porque é não-construtiva, problema que seria resolvido futuramente pelo desenvolvimento então em curso denominado Enacção.
comentários
O que terá acontecido com
– o bloco do Operar e o bloco do Suporte ao operar
no interior da operação de Explicar com Reformular ;
e, agora na própria representação
da empiricidade objeto da modelação,
o Ser vivo no caso de Maturana,
com os dois domínios,
- – o domínio do Operar, na representação,
correspondente ao bloco do Operar
na operação de Explicar com Reformular - – e o domínio do Suporte ao operar, na representação,
correspondente ao Bloco do Suporte ao operar
na operação de Explicar com Reformular
imaginados por Maturana?
Este é um dos modos de ver a pergunta
que este estudo pretende responder
com a ajuda de Michel Foucault.


