Eis que nos adiantamos bem para além do acontecimento histórico que se impunha situar — bem para além das margens cronológicas dessa ruptura que divide, em sua profundidade, a epistémê do mundo ocidental e isola para nós o começo de certa maneira moderna de conhecer as empiricidades.

É que o pensamento que nos é contemporâneo e com o qual, queiramos ou não, pensamos, se acha ainda muito dominado pela impossibilidade trazida à luz por volta do fim do século XVIII, de fundar as sínteses no espaço da representação; e pela obrigação correlativa — simultânea, mas logo dividida contra si mesma — de abrir o campo transcendental da subjetividade e de constituir, inversamente, para além do objeto, esses quase-transcendentais que são para nós a Vida, o Trabalho e a Linguagem. Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, cap. IX (excerto).